Lamento profundamente o falecimento do grande amigo e luthier Tom Humphrey na semana passada em sua residência em Gardener, no estado norte-americano de Nova York. Desde que conheci o Tom, em 1977, imediatamente reconheci nele um grande ser humano: íntegro, sincero, afável, generoso, espontâneo, jovial - e inteligentíssimo. Mas ele era também um artista criativo, dotado de extraordinária imaginação e de alma sensível e poética. Como profissional era sério, determinado, batalhador, e incansável. Havia estudado violoncelo quando adolescente, e tenho certeza de que teria sido um excelente músico se tivesse prosseguido.
Lembro-me com carinho de nossa estreita convivência sempre que
eu ia a Nova York, tanto em seu apartamento em Manhattan quanto no da
Alice Artzt (onde eu me hospedava), que ele visitava freqüentemente.
E nos víamos sempre nas principais salas de concerto da cidade
e em vários cafés e restaurantes. Lembro-me também
de sua visita ao Rio de Janeiro, creio que em 1984 ou 1985 , quando
tive o prazer de hospedá-lo no apartamento da Rua Xavier Leal,
em Ipanema, para onde eu estava transferindo minha oficina.
Tínhamos em comum a paixão pela música, pelo violão,
pelas artes, pela boa mesa, e pela vida. Não importava que nem
sempre tivéssemos as mesmas opiniões, pois era mútua
nossa admiração e respeito. E gostávamos de trocar
idéias sobre lutheria durante longos e estimulantes debates que
geralmente atravessavam as madrugadas.
Fomos apresentados por um amigo comum, o violonista e alaudista Pat
O'Brien, quando eu buscava um luthier que pudesse me ensinar os fundamentos
práticos dessa arte - anos antes Pat havia trabalhado com David
Rubio, quando este ainda estava nos Estados Unidos. Prontamente o Tom
se ofereceu a me ajudar no que fosse possível, porém tive
um certo constrangimento inicial já que ele se recusou terminantemente
a aceitar qualquer pagamento. Mas não demorou muito para eu me
sentir totalmente à vontade e passei quase dois meses indo diariamente
à sua oficina, onde permanecia durante horas seguidas aprendendo
a afiar e usar formões, a plainar peças de madeira, fazer
colagens, regular e usar máquinas etc. Como se não bastasse,
ele também me levou às principais lojas da cidade e me
orientou na compra de várias das máquinas e ferramentas
que uso até hoje.
Procurado apenas pelos violonistas da cidade quando o conheci, acompanhei
seu merecido crescimento profissional até se tornar um luthier
célebre e internacionalmente reconhecido cujo nome dispensava
apresentação. Em pouco tempo sua oficina se tornou um
ponto de referência para violonistas visitantes do mundo inteiro.
Presenciei inúmeras situações divertidas durante
nosso convívio. Pouco depois de o conhecer, a Alice e eu gostávamos
de brincar com ele comentando sobre os "patos" de uma das
rosetas que ele mesmo havia feito. Ele protestava insistindo que não
eram patos, eram cisnes. Na verdade eram bem charmosos, só que
o mosaico não tinha altura suficiente para caracterizar o pescoço
dos cisnes. Mas logo ele começou a fazer modificações
e, após várias experiências, chegou eventualmente
a uma roseta extremamente elegante e de grande beleza - com flores em
vez de cisnes. Como ele era fanático por pássaros, numa
das viagens lhe levei de lembrança uma gaivota de madeira feita
para se pendurar em lugar alto, dessas que tinham uma cordinha que se
puxava e as asas se mexiam, realmente muito bonita e bem feita (na época
eram comuns nas lojas para turistas aqui em Copacabana). Fiquei algumas
semanas fora e, quando retornei, a Alice me disse para ir à casa
do Tom que eu ia ter uma surpresa e tanto. Quando cheguei lá
o teto do apartamento inteiro estava coberto de pássaros com
cordinha que ele mesmo tinha feito, cada um diferente do outro.
Certa vez combinamos de ir assistir Rudolf Nureyev, que faria uma única
apresentação em Nova York em homenagem a Nijinsky. No
programa, Petrouchka, Parade, e L'après-midi d'un Faune, nas
coreografias originais de Nijinsky para o Balé Russo. Eu comprei
as entradas com antecedência e, no dia, marcamos de nos encontrar
na porta do teatro faltando 15 minutos para as 8. Chegamos, ele me reembolsou
pelo ingresso dele, mas de repente o ambiente ficou estranho, o foyer
começou a encher de gente. Aí fui conferir no bilhete
e o espetáculo estava marcado para as 7 horas, não para
as 8 como era habitual na cidade. Por pura distração minha
perdemos Petrouchka, que segundo a crítica do New York Times
foi memorável. Procurei compensar convidando-o para jantar num
ótimo restaurante indiano no dia seguinte, junto com a Alice,
que estaria chegando de uma turnê.
Pouco nos vimos depois que ele se mudou - com sua adorável esposa
brasileira Marta e as duas filhas - para a imponente e confortável
casa que ele mesmo projetou em Gardner, a três horas de N. York.
Porém, quando os visitei em outubro de 2000, a sensação
foi a de que apenas algumas semanas se haviam passado desde nosso encontro
anterior cinco anos antes, ainda em Nova York.
A Marta, Gabriela, e Adriana, minhas sinceras condolências pela
perda irreparável.
Foto:
Tom e Martha Humphrey na sua residência, com Sergio Abreu (1985).