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Relembrando Thomas Humphrey (13/9/1948 - 16/4/2008)
por Sérgio Abreu - Rio de Janeiro, 23 de abril de 2008

Lamento profundamente o falecimento do grande amigo e luthier Tom Humphrey na semana passada em sua residência em Gardener, no estado norte-americano de Nova York. Desde que conheci o Tom, em 1977, imediatamente reconheci nele um grande ser humano: íntegro, sincero, afável, generoso, espontâneo, jovial - e inteligentíssimo. Mas ele era também um artista criativo, dotado de extraordinária imaginação e de alma sensível e poética. Como profissional era sério, determinado, batalhador, e incansável. Havia estudado violoncelo quando adolescente, e tenho certeza de que teria sido um excelente músico se tivesse prosseguido.


Lembro-me com carinho de nossa estreita convivência sempre que eu ia a Nova York, tanto em seu apartamento em Manhattan quanto no da Alice Artzt (onde eu me hospedava), que ele visitava freqüentemente. E nos víamos sempre nas principais salas de concerto da cidade e em vários cafés e restaurantes. Lembro-me também de sua visita ao Rio de Janeiro, creio que em 1984 ou 1985 , quando tive o prazer de hospedá-lo no apartamento da Rua Xavier Leal, em Ipanema, para onde eu estava transferindo minha oficina.
Tínhamos em comum a paixão pela música, pelo violão, pelas artes, pela boa mesa, e pela vida. Não importava que nem sempre tivéssemos as mesmas opiniões, pois era mútua nossa admiração e respeito. E gostávamos de trocar idéias sobre lutheria durante longos e estimulantes debates que geralmente atravessavam as madrugadas.


Fomos apresentados por um amigo comum, o violonista e alaudista Pat O'Brien, quando eu buscava um luthier que pudesse me ensinar os fundamentos práticos dessa arte - anos antes Pat havia trabalhado com David Rubio, quando este ainda estava nos Estados Unidos. Prontamente o Tom se ofereceu a me ajudar no que fosse possível, porém tive um certo constrangimento inicial já que ele se recusou terminantemente a aceitar qualquer pagamento. Mas não demorou muito para eu me sentir totalmente à vontade e passei quase dois meses indo diariamente à sua oficina, onde permanecia durante horas seguidas aprendendo
a afiar e usar formões, a plainar peças de madeira, fazer colagens, regular e usar máquinas etc. Como se não bastasse, ele também me levou às principais lojas da cidade e me orientou na compra de várias das máquinas e ferramentas que uso até hoje.


Procurado apenas pelos violonistas da cidade quando o conheci, acompanhei seu merecido crescimento profissional até se tornar um luthier célebre e internacionalmente reconhecido cujo nome dispensava apresentação. Em pouco tempo sua oficina se tornou um ponto de referência para violonistas visitantes do mundo inteiro. Presenciei inúmeras situações divertidas durante nosso convívio. Pouco depois de o conhecer, a Alice e eu gostávamos de brincar com ele comentando sobre os "patos" de uma das rosetas que ele mesmo havia feito. Ele protestava insistindo que não eram patos, eram cisnes. Na verdade eram bem charmosos, só que o mosaico não tinha altura suficiente para caracterizar o pescoço dos cisnes. Mas logo ele começou a fazer modificações e, após várias experiências, chegou eventualmente a uma roseta extremamente elegante e de grande beleza - com flores em vez de cisnes. Como ele era fanático por pássaros, numa das viagens lhe levei de lembrança uma gaivota de madeira feita para se pendurar em lugar alto, dessas que tinham uma cordinha que se puxava e as asas se mexiam, realmente muito bonita e bem feita (na época eram comuns nas lojas para turistas aqui em Copacabana). Fiquei algumas semanas fora e, quando retornei, a Alice me disse para ir à casa do Tom que eu ia ter uma surpresa e tanto. Quando cheguei lá o teto do apartamento inteiro estava coberto de pássaros com cordinha que ele mesmo tinha feito, cada um diferente do outro.


Certa vez combinamos de ir assistir Rudolf Nureyev, que faria uma única apresentação em Nova York em homenagem a Nijinsky. No programa, Petrouchka, Parade, e L'après-midi d'un Faune, nas coreografias originais de Nijinsky para o Balé Russo. Eu comprei as entradas com antecedência e, no dia, marcamos de nos encontrar na porta do teatro faltando 15 minutos para as 8. Chegamos, ele me reembolsou pelo ingresso dele, mas de repente o ambiente ficou estranho, o foyer começou a encher de gente. Aí fui conferir no bilhete e o espetáculo estava marcado para as 7 horas, não para as 8 como era habitual na cidade. Por pura distração minha perdemos Petrouchka, que segundo a crítica do New York Times foi memorável. Procurei compensar convidando-o para jantar num ótimo restaurante indiano no dia seguinte, junto com a Alice, que estaria chegando de uma turnê.


Pouco nos vimos depois que ele se mudou - com sua adorável esposa brasileira Marta e as duas filhas - para a imponente e confortável casa que ele mesmo projetou em Gardner, a três horas de N. York. Porém, quando os visitei em outubro de 2000, a sensação foi a de que apenas algumas semanas se haviam passado desde nosso encontro anterior cinco anos antes, ainda em Nova York.
A Marta, Gabriela, e Adriana, minhas sinceras condolências pela perda irreparável.


Foto: Tom e Martha Humphrey na sua residência, com Sergio Abreu (1985).