O Violão Brasileiro de Othon Salleiro por Flavia Prando (SP)
Othon Sivaldo Vaz Salleiro nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 1910. Aos dezesseis anos torna-se aluno de Quincas Laranjeiras e sua vocação musical começa a incomodar seus pais. Foi aluno do violonista Gustavo Ribeiro. Aos 19 anos começou a apresentar-se em público. Por imposição da família formou-se médico e especializou-se mais tarde em psiquiatria, profissão que exerceu durante quarenta anos.
Foi nesta época também, que segundo relatava o próprio Salleiro, ele teria recebido de herança de seu padrinho, Sr. Peixoto, que seria dono do Bairro do Peixoto (Copacabana), então uma chácara. Salleiro teria vendido tudo e ido para Porto Alegre. Ali, segundo consta, passou alguns anos e teria composto boa parte de sua obra. Provavelmente o caráter regional de muitas de suas composições possa ser explicado por este período em que residiu no sul do país. Suas modas de viola, chimarritas, repinicados e toadas de viola fogem a temática urbana do choro de então.
Outra hipótese é que a utilização de um repertório característico da viola possa remeter ao Rio de Janeiro oitocentista. Instrumento trazido pelos portugueses, a viola instalou-se no meio urbano e sofreu sua interiorização somente em meados do século XIX com a introdução do violão na sociedade brasileira, principalmente nos meios urbanos. É possível que Othon Salleiro, nascido na primeira década do século XX, tenha ainda na infância ouvido os resquícios desta tradição.
Em outras composições, encontramos o sabor nordestino tão em voga na música urbana carioca. Introduzidos por Catulo da Paixão Cearense (1863 1946), João da Baiana (1887 - 1974), João Pernambuco (1883 1947), Romualdo Miranda (1887 1930) e Luperce Miranda (1904 1977), entre tantos outros músicos que chegavam a então capital do país, os ritmos do norte-nordeste do país vão delinear a estética da música instrumental brasileira e influenciar também a produção de Othon Salleiro.
Salleiro conviveu com Quincas Laranjeiras, de quem foi aluno, João Pernambuco, os irmãos Miranda, João da Baiana, Jacob do Bandolim (1918 -1969), Dilermando Reis (1916 1977), Pixinguinha (1887 1973) e Agustín Barrios (1885 1944). O paraguaio Agustín Barrios foi quem mais influenciou Salleiro, passando para este a importância do apuro técnico, a ligação com o folclore da América do Sul e o estilo da linguagem violonística. Citamos síntese feita pelo violonista Fabio Zanon em programa na Rádio Cultura:
A originalidade e finesse da obra de Salleiro emerge do amálgama
perfeito entre a poética da música popular urbana, elementos
regionalistas e uma complexidade de texturas oriundas do seu detalhado
conhecimento do repertório clássico do violão.
As lojas de instrumentos eram ponto de encontro entre os músicos
no Rio e nelas ele conviveu com João Pernambuco, Pixinguinha,
Jacob do Bandolim, mas também com Segovia e Agustin Barrios
que foi sua influência mais evidente como compositor, nas soluções
harmônicas inesperadas e na exploração das possibilidades
dramáticas do registro agudo do violão. É música
que carece daquela memorabilidade imediata de seu exato contemporâneo
Dilermando Reis, mas que gratifica o ouvinte como escuta prolongada,
como é que um compositor sumamente interessante como Othon
Salleiro pode permanecer no anonimato? Infelizmente, ele foi o principal
culpado, sendo médico, ele comportou-se como um amador e nunca
se preocupou em escrever e divulgar sua música 1.
Almejando a posição de solista de violão clássico,
conhecendo as obras do repertório tradicional do violão
de concerto, dominando os rudimentos de sua técnica e idiomática
e tendo convivido no efervescente cenário do violão
carioca onde figuraram Josefina Robledo (1897 1972), Agustin
Barrios, Narciso Yepes (1927 1997) e Andrés Segovia
(1893 1987), Salleiro se diferenciava nos círculos da
música popular.
Convivendo com a nata da música popular brasileira, conforme vimos acima, Salleiro encontrou materiais rítmico-temáticos tanto urbanos quanto regionais. Este universo musical, aliado às técnicas e texturas do violão de concerto constitui a linguagem instrumental única de Othon Salleiro dentro do rico universo do violão popular brasileiro.
Exercendo outra profissão que não a música, Salleiro dedicou-se a elaborar suas obras através das execuções repetidas, já que não tinha o hábito de grafar suas músicas. Acreditamos também ter sido esta a razão que levou Salleiro a focar sua produção exclusivamente para violão solo, pois não participava dos conjuntos profissionais de música (os regionais) como faziam seus contemporâneos violonistas, uma vez que já naquela época não era possível sobreviver somente de solos de violão.
Othon Salleiro revela a síntese do cenário violonístico de seu tempo, externando o regionalismo rítmico e temático de João Pernambuco; as novas possibilidades de textura, harmonia e extensão dos recursos idiomáticos do violão de Villa-Lobos e a descoberta de uma nova técnica e repertório do violão clássico que se surgia no Rio de Janeiro do início do século XX com a presença de violonistas como Josefina Robledo, Isaías Sávio (1900 1977), Maria Luisa Anido (1907 1996), Narciso Yepes, Andres Segovia e principalmente, do universo idiomático latino-americano de Agustin Barrios.
Entre os elementos musicais que se destacam e constituem uma linguagem instrumental própria dentro do panorama do violão popular brasileiro podemos citar: o uso do trêmolo, a utilização sistemática de campanellas, o abuso de harmônicos naturais e artificiais, a percussão no corpo do instrumento, os rasgueos variados, as soluções harmônicas inesperadas e os procedimentos diferenciados de scordatura.
O único registro comercial que temos do Salleiro como violonista é o incrível LP Violão Brasileiro - Othon Salleiro, Musidisc-HI-FI 2115, da década de 60, raridade fonográfica. Othon Salleiro faleceu em 1999, em sua casa em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro.
A violonista Flavia Prando (flaviaprando@uol.com.br) é Bacharel
em Música pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) e está
concluindo o Mestrado em Música na ECA-USP, com tese dedicada
à obra de Othon Salleiro, e sob a orientação
do Prof. Dr. Edelton Gloeden.