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As máximas técnicas de Fernando Sor.
Tradução e comentários de Nicolas de Souza Barros (UNIRIO – 2006).


Editado em 1830 em francês, e traduzido para inglês em 1831 por A. Merrick (a versão aqui utilizada), o Método para Violão Espanhol de Fernando Sor é um dos grandes tratados para cordas dedilhadas escritos nos trezentos anos que o separam dos primeiros tratados para alaúde e vihuela do renascimento europeu. Influenciado pelos enciclopedistas franceses e com índole analítica e observadora, Sor define a sua metodologia na primeira frase do seu método: “Ao escrever um Método, pretendo abordar apenas aquilo que reflexões e experiência me fizeram estabelecer para regular meu próprio desempenho”. 1 Esta listagem de máximas gerais encerra o texto do método. 2 Nesta tradução, os comentários em itálicos são do autor deste artigo; os colchetes incluem palavras necessárias para ajudar na compreensão do texto de Sor, que segue...


Irei concluir esta explanação com um resumo de máximas gerais, que são o resultado de tudo que tem sido colocado:


Primeiro. Dar maior valor ao efeito da música do que aos elogios às capacidades do interprete.


Segundo. Tentar resolver [os problemas] mais com a habilidade do que a força.


Terceiro. Ser comedido no emprego das pestanas e dos traslados. Sobre traslados: nas digitações encontradas nos métodos e no repertório instrumental do início do século XIX, pode ser verificado o emprego pouco freqüente das posições mais agudas do braço do violão por razões de variedade tímbrica. Um exemplo de outra prática é a digitação horizontal (a subida e descida da mão esquerda na mesma corda, um dos elementos vitais do estilo instrumental de Andrés Segovia.) 3


Quarto. Considerar a digitação uma arte, que teria como seu objetivo ajudar-me a encontrar as notas que quero [tocar], ao alcance dos dedos que deverão produzi-las, sem a necessidade contínua de fazer desvios nos propósitos de encontrá-las. Devido em parte às dificuldades que a classe dos violonistas tem para a leitura, freqüentemente empregam a primeira digitação encontrada sem questionar a validade técnica e instrumental da mesma. Iznaola 4 afirma que nunca dever-se-ia parar de pesquisar soluções que possam aumentar a fluência técnica; quando Sor afirma considerar a digitação uma arte, ele está dizendo a mesma coisa.


Quinto. Nunca valorizar as dificuldades na minha execução, pois ao fazê-lo, estarei tornando difícil aquilo que não o é.


Sexto. Nunca dar trabalho aos dedos mais fracos, enquanto que os dedos mais fortes estejam descansando. Para Sor, os dedos fortes da mão direita eram o polegar, indicador e médio (página 33 do Método): “De acordo com aquilo que acabou de ser explicado, o leitor poderá facilmente perceber que, se eu raramente emprego o terceiro dedo da mão direita na execução da harmonia [o dedo anular], eu o proíbo completamente na execução melódica”. Esta é uma das pilastras da sua conceituação de mão direita, e é inclusive questionada por teóricos modernos. 5 O conteúdo desta máxima contrasta com a posição da maioria das metodologias do século XX, que pedem a incorporação do anular da mão direita; este seria um avanço associado à atuação de Tárrega.


Sétimo. Não incorrer numa falha muito comum, que deriva de um pensamento acertado em relação ao piano, mas que é muito mal aplicado ao violão; e consiste de não apertar um dedo por mais tempo do que a nota que irá produzir. Enquanto um dedo aperta uma tecla no piano-forte, ele permite os arames a continuar vibrando, e o som, mesclando com aquele de outra tecla, produziria um efeito incompatível com a pureza da performance; mas dois ou três sons sendo realizados na mesma corda de um violão, se a sua progressão for ascendente, o segundo [som] abafa e termina o som do primeiro, e o terceiro faz o mesmo em relação ao segundo. Se no momento de abaixar o dedo que fará o segundo [som], eu ao mesmo tempo levanto o dedo que apertava o primeiro, estarei executando dois movimentos ao invés de um, e até corro o risco de levantar este dedo um instante antes do correto, e fazer a corda solta soar, o que, ao invés de tornar a minha performance mais pura, o tornaria menos pura. Se as notas forem descendentes, ao invés de esperar o momento no qual a nota deverá ser produzida para apertar a corda, eu já tenho o meu dedo nela, e terei nenhuma outra ação a realizar além de levantar o dedo que apertava a nota mais aguda. Isto também me poupa da realização de um movimento, e também de uma ostentação da qual nunca tenho aprovado.

A respeito do emprego dos dedos da mão esquerda, a visão de Sor é distinta daquela defendida por escolas mais recentes. Nestas, uma das máximas centrais é de que quando um dedo não tiver que apertar mais a corda (porque a duração da nota que está sustentando terminou), então deve ser levantado. É de maior dificuldade a realização do movimento composto (quando um dedo da m.e. abaixa e outro levanta simultaneamente). No entanto, a prática desta técnica favorece os seguintes: 1) os músculos extensores dos dedos da mão esquerda são mais acionados, o que favorece maior equilíbrio entre estes e os flexores; 2) a independência dos dedos desta mão é majorada; 3) ao não manter um número maior de dedos pressionando desnecessariamente, a mão esquerda torna-se mais leve, e; 4) aumenta a probabilidade do polegar da mão esquerda ter de apertar menos em função de ‘3’.


Oitavo. Evitar um movimento lateral que alguns violonistas pensam ser gracioso, que é o abandono do direcionamento paralelo entre a linha formada pelas pontas dos dedos [da mão esquerda] e a linha das cordas. Por exemplo, nas notas sucessivas Lá (na primeira corda), Sol, Fá #, Mi, Ré (na segunda corda), ao tocar o Lá eles tem uma excelente colocação das pontas dos dedos; mas assim que o mindinho sai do Lá, este dedo sai do braço [do violão], e o Sol [dedo 2] sai por sua vez; e quando somente resta o dedo 1 no Fá#, o alinhamento dos dedos faz um ângulo de 45 graus com a corda, ou seja toda a mão está por trás do braço [do violão], porque estes [violonistas] têm realizado uma rotação do pulso para fazer aquilo que se o tivessem feito com os dedos, facilitaria [a ação de] o dedo 2 para tocar o Ré na segunda corda, sem obrigar o pulso a realizar um movimento para recolocar a mão em relação ao braço [do violão], a menos que o Ré seja tocado com um dedo achatado [posição de pestana], o que requer muito maior pressão, e eu não sei como isso poderia ser feito sem apertar também o Sol na primeira corda, quando, talvez, eu poderia desejar que fosse novamente uma corda solta novamente, e seria então obrigado a realizar um outro movimento para liberar esta corda. Quando minha mão está numa posição, e a passagem [musical] não tem harmonia, eu posiciono o meu pulso de forma que uma linha reta desenhada entre os dedos 1 a 4 será paralela à corda. Mantenho o meu pulso imóvel, e mantenho os meus dedos sobre os pontos nos quais deverão atuar. Como escritor, o estilo por vezes prolixo de Sor é revelado na frase acima – que tem 197 palavras (eu contei). A sua posição a respeito do alinhamento dos dedos da mão esquerda não é novidade; mas deve ser ressaltado que o violonista uruguaio Abel Carlevaro, um dos principais teóricos do século XX, destacava a necessidade da integração do antebraço, braço e cotovelo esquerdo na movimentação dos dedos da mão esquerda, para facilitar a integração de determinadas posições da mão esquerda.


Nono. Quando existe a necessidade de realizar uma grande abertura no braço do violão [na sua largura], e o mindinho irá segurar uma das extremidades, então tome a outra extremidade com o maior dedo [restante]. Freqüentemente, observo violonistas que aceitam uma abertura entre os dedos 3 e 4 para formar o bicorde de sol 3 (1ª corda) sol 1 (6ª corda). Para resolverem esta situação, seria mais interessante empregar os dedos 2 e 4, ou 2 e 3 (levando sempre em consideração que cada contexto musical modifica as possibilidades da sua resolução técnica).


Décimo. Quando ocorrer uma posição difícil, encontrar a situação menos inconveniente para o dedo mais fraco, deixando o trabalho maior para o dedo mais forte. Uma possível interpretação desta máxima: quando houver a necessidade de destacar uma nota interna – não melódica, e tampouco pertencente ao baixo, e o polegar da sua mão direita não estivesse ocupado, então Sor freqüentemente deslocaria este dígito para conseguir o destaque desejado (provavelmente, empregando o peso do dígito).


Décimo-primeiro. Quando é necessário fazer com que o alinhamento dos dedos seja paralelo ao traste e não à corda, faça com que este traslado dependa mais no posicionamento do cotovelo do que o movimento do pulso. Esta colocação genial de Sor antecipa as idéias de Carlevaro em torno de 150 anos. 6


Décimo-segundo e último. Valorizar o raciocínio como sendo o mais importante, e a rotina como não tendo importância. Muitos violonistas tendem a se tornarem escravos da rotina, dando pouca importância ao raciocínio. Já vi em muitas ocasiões pessoas perderem literalmente anos da sua vida porque não refletiam de forma racional sobre o seu estudo técnico ou a sua interpretação. Eu já caí nesta armadilha.